MANIFESTO DE UM PEÃO, NO DIA DO TRABALHADOR
Por João Alcântara de Almeida – Escrevente Judicial – DOURADOS/MS.
A internet talvez tenha sido uma das mais importantes ferramentas para registro e propagação que o mundo moderno nos proporciona. Algumas, obviamente, são palavras jogadas ao vento; outras, a alguém podem interessar, e servir como inspiração, etc. Todos os momentos de nossas vidas precisariam ser registrados, mas como isso é praticamente impossível, pelo menos aqueles considerados mais importantes não poderiam deixar de ser formalizados para a posteridade.
Foi neste 1º de maio/2009, acordando cedo, quando se comemora o Dia do Trabalhador, com o fito de desenvolver trabalhos que minha outra atribuição (contador) me requisita, atendendo clamor de “clientes” que precisam de meus préstimos, com prazo praticamente esgotado, é que passei a refletir sobre alguns momentos passados, precisamente sobre minha ida à capital do Estado no dia 29/04/2009, a fim de participar de um ato de protesto, em busca por condições dignas de trabalho junto aos administradores do Poder Judiciário/MS, do qual faço parte, com muito orgulho, há 22 anos, sempre na cidade de Dourados, reforçando e dando amparo aos nossos garbosos colegas de luta.
Para alguns que não conhecem, o Poder Judiciário é dividido em 1ª e 2ª instâncias, sendo aquela constituída pelas sedes das comarcas, geralmente localizadas nos principais municípios do Estado, onde um juiz comanda uma Vara (unidade cartorária e gabinete deste), e assessorado por diversos trabalhadores, nos mais variados cargos; esta última, localizada na capital do Estado, composta por seções, onde estão os desembargadores, que (re)julgam os recursos de descontentamento de alguma parte que se manifestou na 1ª instância, e onde também se localiza a sede do Poder (parte administrativa, etc.). Aqui citei, de forma simples, essa composição, apenas para entenderem o enredo para onde quero chegar.
A insatisfação, sentida na pele, reflete, necessariamente, um estado de morbidade por qual passamos em determinado momento. Talvez esse seja o quadro pelo qual os servidores do judiciário estão passando nesse momento.
Voltando ao relato da viagem à capital, faz-se necessário dizer que tivemos que sair por volta das cinco horas da manhã (de Dourados) para se deslocar até aquela pujante cidade. Alguns colegas, marinheiros de primeira viagem, a princípio demonstravam ansiedade pelo horizonte que se descortinava, mas não tinham a precisa razão do que poderia acontecer ou estava por vir, mas encorajados pelos mais experientes, seguiam suas “orientações” e ouviam, atentamente, histórias do passado de luta.
Proletariados que somos, chegando à sede do Tribunal de Justiça, podemos enxergar um suntuoso palácio, onde ali, aparentemente, tem de tudo e do melhor.
Não podíamos esquecer, porém, nossa condição de vassalos, essa era a condição. Fomos, literalmente, menosprezados. Por ter conhecimento de nosso ato, que por sinal foi pacífico e digno dos maiores elogios, fomos surpreendentemente recepcionados por uma fileira de policiais, postados a porta, que nos impediram de adentrar a sede principal da justiça. O sol já estava forte, e ficamos em pé, sem acesso a banheiros, salvo exceção de algumas mulheres, que com jeitinho conseguiam driblar a truculência que nos era imposta. Sim, fomos tratados com desdém, inclusive por colegas nossos que trabalham lá, se é que posso assim chama-los, pois passavam por nós e até viravam o rosto, como se fôssemos mambembes e arruaceiros. Enfim, o descaso foi enorme para com aqueles que lutam nesse poder com galhardia e espírito cooperativo e sentem-se, enganosamente, parte componente do Poder.
Da posição em que nos encontrávamos, e para chegar à cantina, poderíamos atravessar o saguão, mas para lá podermos nos dirigir, os policiais pediam para que rodeássemos o prédio, que não é pequeno, como se fôssemos “leprosos” e nossa interferência naquele espaço pudesse “contaminar” e representar perigo à grande maioria que ali “vegetam” em estado de submissão absoluta, néscios por natureza.
Em ato de sublimidade, por sapiência não demonstrada já há muito tempo, os condutores do protesto souberam, como verdadeiros paladinos, conduzir a negociação e os encaminhamentos, e aqui quero parabenizá-los pela atitude louvável e digna dos melhores elogios. Que assim possam continuar, pois com isso teremos mais adeptos e que estes possam engrossar as fileiras, pois a luta não pode parar, sob pena de sofrermos as consequências futuramente.
Embora ainda tivemos que passar por alguns martírios, como almoçar o matulão num escaldante sol do meio-dia, no calçamento asfáltico, com raríssimas sombras, disputadas palmo a palmo pelos valentes “guerreiros”, e ainda por sermos impedidos até mesmo de nos acomodar numa mureta que estava de fronte ao Banco Sicredi porque nem ali o guarda nos deixava alocar; por sermos tratados com desdém pela maioria absoluta dos servidores do Fórum de Campo Grande, que se encontravam trabalhando e sequer nos apoiava no movimento; por sermos tratados como verdadeiros arruaceiros pela administração do TJ; por termos ficados de pé, sob o sol, praticamente o dia todo, pois só saímos da capital por volta das dezenove horas, é que aqui, matutando, acredito que não faço parte do quadro da JUSTIÇA, apenas sou um serviçal.
Recordações de outrora afloraram, especialmente ao rever colegas de luta de longas datas, que ainda não desistiram: JOEL, ALDO, PAULO, IZAÍAS e meu propedêutico irmãozinho camarada MORAIS, todos da capital; o GERSON, de Corumbá; o TADEU, de Fátima do Sul, e me desculpem outros colegas que lembrei da fisionomia, mas não dos nomes. É isso aí, colegas, não desistam, pois a vida continua.
Isso me trouxe uma recordação de minha infância, quando estava numa sede de uma grande fazenda, com uma varanda que cercava toda a casa principal, e num dia de vacinação de gado, com várias pessoas que ali estavam colaborando para o sucesso do evento, na hora do almoço estes sequer puderam ficar na varanda, tendo que se acomodar às sombras das árvores para a ceia. Que mundo melancólico e desleal é esse em que vivemos. Mudam-se apenas os cenários, mas os protagonistas continuam atuando de forma sintomática, cada um no seu quadrado.
Ainda acredito em dias melhores, e não vou desistir disso, pois a vida é assim mesmo, já que o sol nasce para todos, mas a sombra é apenas para os bons. Mas, valeu, e se me chamarem novamente, lá estarei, com orgulho e disposição.
Uma frase aqui quero enfocar, pois acredito que registrada já em várias oportunidades, que em minha época de Faculdade, ao avista-la num mural, tornou minha filosofia de vida, dita há muitos e muitos anos pelo filósofo chinês Confúcio: “O SER HUMANO SUPERIOR EXIGE TUDO DE SI MESMO; O INFERIOR, DOS OUTROS”. Assim, procuro me pautar dentro daquilo que entendo ser o certo, e todos, acredito, sabem de que lado estou.
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