UMA HISTÓRIA E OUTRA ESTÓRIA – parte I
Por João Alcântara de Almeida – quase ex-Escrevente Judicial
Primeiramente vou contar o que aconteceu com meu amigo Edivaldo. Nesse eu acredito. Nunca ouvi ele contar uma mentira. Ele, no seu astuto clamor da juventude, conheceu uma guria lá pras bandas do Mato Grosso. Guria “direita”, de família de matutos, não namorava enquanto seus pais não consentissem. Caipira do mato, tinha seus encantos, mas quando se deparou com as belezas da cidade, sua formosura desabrochou. Nisso, meu amigo Edivaldo, matreiro que só ele só, vislumbrando todo aquele fulgor, não resistiu e com todo o empenho saiu à caça da moça. Ouviu, de imediato, um não!!! Mas quem disse que meu amigo se acanhou, foi lhe dizendo que faria de tudo para conquistar seus encantos. Não deu outra, a moça logo lhe propôs uma visita a seus pais, pois se o velho o aprovasse, tudo bem.
Seguindo para o sertão do Mato Grosso, onde residiam os pais da moça, começou a ficar preocupado, pois num determinado momento acabou a “estrada” e começou uma “picada”. Lá foi meu amigo, enfrentando todas as intempéries e durezas da vida do ermo sertão. Chegando à casa dos pais da moça, uma grande casa no estilo colonial, com as portas abertas, porque por lá não tinham medo de nada, lá foi adentrando meu amigo. Cumprimentaram-se de soslaios e a moça o apresentou a seus pais. O velho, desconfiado que nem vendedor de rifa, foi logo querendo saber os atributos de coragem do futuro genro. Questionou acerca de sua masculinidade, mesmo porque meu amigo usava suas longas madeixas, preservadas a Xampu made in PY, comprado no buteco da esquina de sua cidade natal.
É claro, não precisava tanta humilhação, meu amigo era da cidade, onde os costumes eram outros, mas para o velho aquilo era inadmissível. Foi assim a primeira impressão, mas meu amigo não era bobo, foi logo perguntando ao velho se por ali ainda existiam onças, pois o que lhe apetitava seria tirar o couro de uma pintada, pois era acostumado a praticar muitos safáris e a tirar couro de jacaré, lá pelas bandas do pantanal, ainda vivos. É claro, o desafio era grande, mas a tentativa era logo intimidar o velho, mas achava ele que dali não sairia nenhuma empreitada perigosa. O velho, de imediato, desconfiando da farsa, foi logo dizendo ao seu pretenso candidato a genro: “já é de tardezinha, e isturdia, nesse mesmo horário, avistei umas onças na tocaia, é a menos de 500 metros daqui. Vos micê poderia já ir fazendo uns treino, antes da véia perpará o jantar”.
Ufa, o desafio era grande, iminente, e não havia saída, afinal a primeira impressão é a que fica, e meu amigo queria, a todo custo, conquistar a simpatia do velho. É claro, cara esperto da cidade, aceitou o desafio, mas já foi logo matutando como ia se desenrolar os fatos. O sogro lhe ofereceu uma espingarda cartucheira, já preparada, e passou às mãos do Edivaldo. Tinha que acontecer algo diferente, senão a impressão não seria das melhores. Meu amigo rejeitou o trabuco e pediu um facão, afirmando ele que dava mais emoção, e ainda teria que ser cego, para a danada da onça sofrer mais.
O velho estatelou os olhos, mas pedido era pedido, e queria provar a coragem do cidadão. Foi à despensa e logo trouxe um facão daqueles que se corta prego, cheio de falhas, e o entregou ao jovem astuto. Vendo aquela situação, e demonstrando coragem, o Edivaldo disse que esperava um facão daquele tipo mesmo, pois nunca tinha deixado um animal sofrer tanto como aquele que estaria por cair em suas unhas.
Na verdade, ele ganhava tempo para pensar numa saída de mestre para o caso. O velho se ofereceu para ir junto, mas é claro, meu amigo logo o descartou e pediu para o velho já ir esquentando a chaleira para mais adiante tomar o mate. O velho, vendo aquela tremenda loucura, ainda o advertiu: “Edivardo, si cuida bem, onça gerarmente anda em dupra”. Meu amigo, demonstrando grande tranquilidade, disse que assim a emoção seria maior, e saiu na caça da felina.
Para o Edivaldo, os centímetros eram metros, a cada passada era como se “comesse” dezenas de metros. Quase andava para trás, pois que pensava numa maneira de resolver aquela situação e ainda sair por cima. Olhava para trás e via o velho abanando as mãos, como se tivesse despedindo-lhe pela última vez. De repente surgiu-lhe, repentinamente, uma idéia que, tinha certeza, iria funcionar, mas por enquanto fica o suspense.
De fato, percorrido os 500 metros da casa, o Edivaldo avistou duas pintadas, embaixo de uma árvore, brincando uma com a outra. Meu amigo me disse que nunca tinha visto, ao vivo, uma onça, e passou por sua cabeça que poderia ser animal de estimação do velho e este o estava querendo aplicar-lhe uma. Entretanto, mesmo assim, procurou se aproximar com cautela, andando nas pontas dos pés para sequer quebrar um galho seco que tivesse pela frente, acreditava ele que estava flutuando.
Cerca de 30 metros dos animais, o Edivaldo se aportou atrás de uma árvore, mas como o mesmo tinha andado quase o dia todo, ainda não havia tomado seu corriqueiro banho, e colaborado pelo quente sol sob sua carcaça pego durante o dia na longa caminhada até a casa do velho, o mal cheiro de suor era infernal. Logo, os bichos sentiram a presença de algo estranho na área. Meu amigo percebeu isso, e se viu na maior enrascada de sua vida, pior do que aquela vez em que teve que pular uma janela, na condição de “Ricardão”, caindo sobre uma touceira de rosas.
Voltando ao caso concreto, meu amigo pensou em subir na árvore, mas logo refletiu que se fizesse isso e as onças se aproximassem, dificilmente teria condições de descer. Pior ainda é se o velho tivesse que vir socorre-lo, aí, sim, a situação ficaria mais vexatória para o rapaz.
Plim …. O certo seria jogar uma pedra nos animais e fazer com que esses corressem contra si. Não deu outra, abaixando, encontrou um cocos macaúbas, e atirou “ferozmente” sobre os animais. Não deu outra, mexer com quem tá quieto, infelizmente não é um bom negócio, já diziam os sábios de plantão, e meu amigo tinha plena consciência disso, mas os planos ainda estavam em andamento, e tinha que dar certo.
Foi quase que simultâneo, a cair os cocos sobre os lombos das felinas, imediatamente uma delas saiu no encalço de meu amigo aventureiro. Pensou e sussurrou baixinho: “pernas, pra que te quero?” Saiu em desabalada carreira, em destino à casa do velho. Para ele, não mais corria, voava como nunca tinha feito antes. É claro, este tinha feito alguns treinos na cidade, quando arranjava algumas brigas nos longínquos bairros de sua cidade, e sempre desafiava seus desafetos a perseguirem-no, e nunca pegaram-no.
Dito e feito, os quinhentos metros foi fichinha para o Edivaldo. A onça nunca tinha perseguido animal com tamanha agilidade. Quase sem fôlego, meu amigo entrou pela porta da sala, cruzou um corredor onde se situavam os quartos, chegando à cozinha. A distância entre a onça e ele, durante o percurso, era em torno de 20 metros, mas a distância encurtava cada vez mais. Amarelo pelo medo, seu sangue praticamente não circulava mais em seu corpo.
Na cozinha, deparou-se com o velho, sentado, já com a cuia de mate à mão. Mesmo sôfrego, foi lhe dizendo: “Vai arrancando o couro dessa que já estou buscando a outra”. Saiu pela porta da cozinha, e em poucas horas já estava em destino a sua cidade natal. Perguntei ao Edivaldo o que realmente aconteceu após tudo aquilo. Não sei se por encargo de consciência, mas nunca ele quis me contar o restante do caso ( ) ou causo ( ).
Certamente podemos tirar muitas lições disso. O mundo está cheio de caçadores de onça, mas quem realmente tira o couro, ah, sim, esses são poucos.
Obs.: Qualquer semelhança com outros nomes, outros fatos ou outros acontecimentos reais, terá sido mera coincidência.
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